Novos Televangelistas (1)

Cresci a ouvir sermões. Nascido numa família católica, a missa de domingo era um ritual obrigatório. E não há, ou melhor, não havia então, missa sem sermão. Confesso que nesse pormenor era um privilegiado. Contrariamente à maior parte dos meus amigos, eu, quando o padre celebrante iniciava a eterna litania, que precedia o sermão, - “Naquele tempo …”, embora aparentemente atento, em regra o pensamento voava-me para sítios que nada tinham a ver com “aquele tempo”, e tudo com o tempo de então, que era bem mais estimulante.
Onde estava o meu privilégio? Em que a minha mãe, contrariamente ao que faziam as mães dos meus amigos, não tinha o hábito de conferir se eu tinha ido realmente à missa, perguntando – “o que disse o padre no Evangelho?”. Isto funcionava na época, como um verdadeiro detector de mentiras.
O tempo foi-me afastando da igreja, à medida que se começou a verificar o inevitável confronto entre a Doutrina teológica por um lado, e a História e a Razão por outro. Foi uma separação amigável. Quando se proporciona, não sinto qualquer reserva mental em entrar num templo (de qualquer religião). São geralmente espaços tranquilos que convidam à reflexão.
De todo esse tempo porém, ficou-me o sentimento de que já tinha “a minha conta” quanto a ouvir sermões. Puro engano. O pior estava para vir.
De crescendo em crescendo, os sermões, agora de origem laica, foram-me perseguindo pela vida fora. Atingiram o insuportável nos tempos actuais, com a presença dessa realidade, simultaneamente maravilhosa e diabólica que são os media. Autênticos televangelistas invadem a partir dali, as nossas mentes massacrando-as com as suas “verdades”, para que possamos optar entre o céu (na terra) e as penas dos infernos, (também na terra).
Aqui reside a única diferença entre estes novos sermões e os que fazia, do altar, o senhor padre, porque, quanto à essência destes novos evangelhos, permanece intacto o princípio judaico-cristão da perversidade natural do nosso corpo e, portanto, a necessidade de o castigarmos. Fazendo penitências várias obviamente.
Disso se encarrega antes de todos, o Estado, através dos impostos e da sua Fábrica Universal de Leis, que tempo por lema “uma lei para tudo, tudo conforme a lei”, e tem imensos “pregadores” (políticos e burocratas) para nos explicar, que isso é exactamente assim, porque essa é a nossa liberdade: a de podermos fazer tudo o que não é proibido – o que, digamos, é manifestamente ridículo.
Mas há muitos outros televangelistas, e bem mais insuportáveis. Deles e das suas doutrinas, refiro-me a seguir...
António Soares