Sexo na Estrela
Etiquetas: história, prostituição, putas
Um olhar de viajante na última carruagem do último combóio de uma Memória intemporal.
A generalidade daquilo que você (e eu) julgamos saber, está errado! Compete-nos a nós, que pensamos, investigamos e comunicamos, fazer algo para que tal não se perpetue.
Etiquetas: história, prostituição, putas
Etiquetas: comunismo, corporativismo, trabalhadores
Etiquetas: neutralidade geométrica, Operação Felix, Zero e Infinito
Quase toda a gente que passava ou parava na zona envolvente à Praça do Pelourinho, conhecia o Vicente. Era uma figura popular, embora não fosse propriamente e em rigor, um habitante da cidade. O “Vicente” era um corvo.
Não se sabia muito bem quando, o corvo aparecera por ali e fizera poiso num espaço algures na Rua Comendador Veiga, exactamente nas traseiras do mais importante clube desportivo da Cidade. Alguém, que simpatizara com o animal improvisara-lhe por ali um poleiro, junto do qual o bicho sempre encontrava água e algum alimento. Era a sua casa.
As pessoas foram-se habituando aos gritos estridentes do corvo e ele lá fazia a sua vida voando livremente sobre os céus da cidade. Isto durou anos. Um dia, há sempre um dia como diz a canção, o Vicente meteu-se numa encrenca. A natureza que o criou, esquecera-se de o instruir sobre a existência de uma instituição fundamental da humanidade, a que todos os seres, - incluindo os corvos -, têm de obedecer para conviverem com os humanos: respeitar a sagrada propriedade individual.
Isto, independentemente do que sobre o assunto, dissesse e pensasse Proudhon ao escrever o livro “Que é a Propriedade?” que, naturalmente o Vicente não pudera ler, e até mesmo só algumas pessoas mais instruídas conheciam de nome.
Quem não queria mesmo saber dessas teorias para coisa alguma foi o cidadão Manuel Paulo Rato Júnior, que sem mais aquelas, apresentou formalmente uma queixa na Polícia contra o Vicente, acusando-o de lhe ter roubado uma escova do limpa pára-brisas do seu automóvel. Ninguém na cidade, ao conhecer-se o facto, encontrou explicação para a razão de o Vicente se interessar pelas escovas de pára-brisas do senhor Rato Júnior. Mas a queixa estava feita e havia que tomar providências, até porque, segundo o chefe da Polícia, já havia outras queixas de actuações do Vicente, que demonstravam o seu inteiro desprezo pela propriedade alheia.
A condenação do corvo foi, tal como a dos atenienses – o ostracismo. Por decisão do referido chefe da polícia da cidade, o Vicente foi levado para longe. Para isso, foi conduzido até à nascente do Zêzere na Serra da Estrela. Não há notícias da forma como reagiu à sua condição de exilado ou, se ainda hoje, quem o saberá, faz voos solitários, naquela sua obsessão pela busca de escovas de limpa pára-brisas.
Enquanto Vicente caminhava para o exílio, noutra zona do mundo – o Quénia -, então uma possessão de Inglaterra, aí sim, a violência era a sério. Tinha começado a insurreição dos Mau-Mau que se veio a saldar, quando da sua extinção. sete anos após, por 13 mil mortes, das quais cerca de 1600 tiveram origem em enforcamentos, e 70 mil prisões. Eram os primeiros ventos da violência que iriam varrer a África.
Nesse dia, o jornal “O Século” que começou a ser distribuído na cidade cerca das 16 horas, tinha como tema de capa a reunião em Ciudad Rodrigo de Salazar e Franco. Na orelha direita do cabeçalho uma data: 1952.
Etiquetas: corvo, mau-mau, propriedade, pára-brisas
A origem de toda esta histeria colectiva contemporânea em torno de pedofilia, é conhecida: o Caso Dutroux na Bélgica*.
Infelizmente só os contornos de violência e morte que envolveram este caso e os que se lhe seguiram, são novos; como novos são os poderosos canais de informação e comunicação social que os divulgam, amplificam e implantam na mente das pessoas, através daquilo a que se usa chamar “ideias de massas”.A pedofilia sempre existiu com mais ou menos visibilidade, com mais ou menos tolerância social nas sociedades humanas, em alguns casos até como rituais esotéricos. Isto em nada nos dignifica como espécie: não são conhecidas praticas equivalentes entre os animais.
O efeito de contágio do caso Dutroux é por demais evidente: por toda a parte começaram a surgir denúncias de praticas alegadamente pedófilas que envolveram membros de igrejas, instituições sociais, escolas e famílias. Muitos casos chegaram aos tribunais e os culpados foram condenados.
Depois, como em todas as coisas, tomou-se a parte pelo todo e as generalizações abusivas também ocorreram. Para atear a fogueira social, pretendeu-se, em diversos casos – o caso português da Casa Pia é um exemplo – meter no mesmo saco pedofilia com prostituição juvenil. Há que não ter medo das palavras: há, sempre houve, crianças e jovens que, por razões que não cabe aqui analisar, se prostituem voluntariamente e fazem disso modo de vida. Cobrir estes últimos com a capa protectora que envolve o adjectivo “crianças”, é demagogia.
Não nos damos conta da enorme abrangência que tem a designação “crianças”. A miúda americana de 14 anos que está com problemas com a polícia por colocar pornografia juvenil na Internet – é uma criança. O miúdo de 13 anos que foi pai há algumas semanas – é uma criança. As adolescentes que falseiam documentos de identidade para se infiltrarem nos concursos de beleza ou frequentar sítios nocturnos “da pesada”; as mães juvenis cada vez mais precoces – também são, tecnicamente, crianças.
É por isso que, e muito bem, os códigos jurídicos de vários países estão, com algumas “nuances” a definir uma “idade do consentimento” para definir o momento em que as “ditas” crianças tem maturidade para tomar decisões sobre os seus actos sexuais, com todos os erros que a atribuição dessa “idade” na base de um critério cronológico puro, necessariamente envolve. Mas enquanto outros dados biométricos não sejam suficientemente credíveis, há que começar por algum lado. Em Portugal a idade do consentimento é 14 anos.
*Marc Dutroux pedófilo belga condenado em 1989, acusado da tortura e assassinato de várias crianças do sexo feminino, entre os 8 e os 14 anos.
Etiquetas: consentimento, pedofilia, prostituição juvenil

Etiquetas: pedofilia, pedofilismo paranóico
“Nada a fazer”. “Godot não virá hoje, talvez amanhã...”.
As palavras escritas por Samuel Beckett, ocorrem-me nesta conjuntura social em que a palavra “desemprego” se ouve e lê por todo o lado. E, talvez não nos apercebamos de que, de alguma forma, estão todos – economistas, Estados, incluídos – à “Espera de Godot”, para este nos devolver o “emprego” desaparecido.
O povo refere que há uma maneira de dizer e várias de entender. É o que se passa, por exemplo, com “emprego”. É uma palavra que tem o significado que tem, mas que, de modo algum, possui a abrangência suficiente para ser o sinónimo de “trabalho”. O emprego tem uma forte componente laboral, mas que não esgota todas as outras múltiplas formas do trabalho produtivo. Daí resulta imediatamente uma primeira falsa interpretação das normas do Direito que existem para regular e proteger o trabalho.
Não há, assegurado, um direito ao emprego pela mesma razão lógica de que o não pode haver igualmente para a empresa que o utiliza. Logo, o direito ao emprego, é realmente uma abstracção comum ao rol de boas intenções dos sindicatos; produz bom efeito visual quando escrito em faixas durante as manifestações de rua, mas não passa disso. De algo apenas virtual.
Há sim instituído, um direito ao trabalho. Só que este direito tem que ser interpretado de forma rigorosa. O seu cumprimento pressupõe apenas, que a todos é garantido o acesso ao mercado de trabalho e que cada um é livre de exercer a profissão que entender desde que esta esteja conforme com a lei geral. Só por uma interpretação distorcida e fantasiosa se poderia imaginar que, para assegurar o direito ao trabalho, o Estado fosse empregar todos os trabalhadores cuja ofício, especialidade ou aptidão laboral não fosse absorvida normalmente pelas empresas e pelo mercado de trabalho.
Compete sempre ao trabalhador “vender” essa sua aptidão, saber, conhecimento ou ofício, ao mercado supostamente “comprador” dos serviços de trabalhadores com uma arte ou saber específicos.
Cada qual pode fazê-lo de forma directa como trabalhador “independente”, ou de forma indirecta como trabalhador “dependente” – alienando nesta situação, durante um determinado período temporal, em troca de um salário -, o exclusivo do seu trabalho, a uma empresa, cuja hierarquia integra, a qual adquiriu o direito de o controlar laboralmente, e de lhe estabelecer metas de produção e normas de procedimento; se essa empresa não é o Estado, o trabalhador dependente -, agora na situação de “empregado”- fica ligado às contingências da empresa e do seu mercado, à sua evolução tecnológica e, em função de algumas delas, até admitir como possível, a dispensabilidade potencial da aptidão laboral que deu origem à sua integração na unidade de produção.
A escolha de uma profissão, ou em mais rigor, a escolha de um quadro de especializações profissionais polivalentes, nunca foi tão complexa como hoje. Durante mais de um século, várias gerações puderam trabalhar sob o mesmo tecto, para a mesma empresa, durante toda a sua vida. Hoje as coisas já não são assim. As pessoas, ao longo da sua vida laboral útil, vão ter que conhecer, muitas empresas, desempenhar profissões variadas, trabalharem mais e ganharem relativamente menos do que os seus pais e avós.
Portanto a reclamação sindical de um “emprego estável”, “com direitos” para todos (o que pressupõe a proibição da sua extinção unilateral), onde seja vedada por lei a rotatividade laboral, só é exequível internamente, isto é quando os sindicalistas, olham para o seu umbigo e o seu próprio emprego, e esquecem que já nada os liga ao mundo laboral que um dia abandonaram para seguir a carreira de sindicalistas profissionais. Quanto aos outros trabalhadores, mesmo os que pagam quotas aos sindicatos, ainda vão ter que aguardar muito por esse idílico mundo de trabalho. Até que Godot venha, num amanhã improvável!
Etiquetas: desemprego, emprego, trabalho.Godot

Etiquetas: convertibilidade, moeda, padrão-ouro
Depois de algum tempo sem actualizar o blogue, volto. Os temas que aqui venho proponho para reflexão, tentam, por norma, afastar-se daquilo que, bem, alguém chamou a “espuma dos dias” que enche fugazmente os media.
Como milhões de pessoas que diariamente se expressam na Net, também eu aspiro a que as análises e reflexões que produzo, tenham a suficiente intemporalidade e mérito para interessar outras pessoas. É difícil. A oferta de opinião na Net supera esmagadoramente a procura. É certo, como dizia o outro, que no topo da pirâmide da qualidade, há sempre um lugar para preencher; mas isso pode levar mais tempo do que aquele que ainda há para viver.
A dificuldade de conseguir visibilidade no ciberespaço é ainda maior para todos aqueles – e são muitos – que, como eu, recusam liminarmente entrar naqueles esquemas de tráfico de notoriedade, - tão conhecidos na blogosfera -, destinados a influenciar os contadores de tráfego: “eu recomendo ou faço um link para o teu blogue tu retribuis”, ou “deixo comentários em todas as caixas dos blogues mais lidos, para servirem de chamariz para o meu blogue”. Não, por aí não. Que me desculpem os meus amigos cujos blogues, além de os ler e apreciar pessoalmente, por uma questão de princípios, não faço deles destaques neste blogue.
Resta-me um conforto: as palavras que aqui escrevemos, vão perdurar em arquivos digitais muito mais tempo do que a esperança de vida de cada um de nós. Tal como a garrafa com uma mensagem que os marinheiros deitavam ao mar -, quem sabe “quem” e “quando” vai ler (ou não) o que agora escrevemos?!
Depois há ainda outro aspecto. As minhas opiniões e análises revestem sempre um aspecto de denúncia social. É relaxante pensar que, se alguma vez estiver certo, antes ou fora do tempo próprio, poderei dizer: eu não pactuei por omissão. Eu denunciei!

Etiquetas: diplomas, escola, professores milicianos
Diz-se que em Portugal há doutores a mais. Acho que não. Doutores, doutores mesmo, no sentido de pessoas de elevada competência técnica e sabedoria nas áreas que escolheram, há poucos – e fazem falta ao país e ao seu desenvolvimento. O que há, e aqui eu concordo integralmente com o académico e escritor Arnaldo Saraiva, é, “doutores a menos e doutores da mula russa a mais”.
Ser doutor em Portugal, dizia Vergílio Ferreira, é uma vingança da classe média” que à falta, e por sentimento de carência, de títulos aristocráticos tradicionais, acha que não devem prescindir do tratamento de doutor, engenheiro, arquitecto e por aí fora. E até, quando um desses “diplomas” se encontra particularmente desgastado, por razões conhecidas, como é o de “advogado”, eles modernizam-no: passam a “juristas”.
O “doutorismo” português é a evidência de que não estamos ainda tão distantes assim das nossas raízes rurais e uma reminiscência tardia da divisão de classes, próprias das sociedades rurais: o trabalhador da terra, versus o senhor Morgado, o senhor Doutor, o senhor Abade, a senhora Viscondessa, a senhora Dona, o senhor Comendador, etc.
Há anos, eu próprio assisti no interior profundo do país, a uma cena exemplar: encontrava-me como convidado de um amigo, na Casa de Quinta da família dele. A certo momento o telefone tocou. Era o pai do meu amigo, que queria dizer algo ao feitor da quinta. Chamámo-lo de longe e o homem veio. Informámo-lo do motivo porque o tínhamos chamado e o rústico, pouco à vontade, lá se dirigiu para o local onde estava o aparelho. Levantou o auscultador e perguntou – É o Senhor Doutor?... Logo após ter obtido a confirmação do outro lado da linha, o homem, por irresistível impulso, tirou respeitosamente o boné da cabeça antes de prosseguir.
Os “senhores doutores” tratam-se mutuamente por “senhores doutores” para darem o exemplo e transmitirem a mensagem pedagógica de que o respeitinho pelas licenciaturas é muito bonito.
Querem rir-se um pouco? Oiçam os diálogos nas comissões parlamentares de inquérito da Assembleia da República. Oiçam o “senhor doutor” Vítor Constâncio a explicar que o “senhor doutor” X não estava suficientemente informado sobre qualquer coisa, ou, por fim, oiçam as palavras de abertura de dois “cromos” destas doutorices, nos cumprimentos e saudações trocadas entre o “senhor doutor” Carlos Magno (sic) e o “senhor doutor” Carlos Amaral Dias (sic) no programa da RDP, Alma Nostra, que por vezes oiço em podcast. Oiçam, para ver quanto somos pequeninos, acomodados e ridículos.
Etiquetas: senhores doutores da mula ruça

Etiquetas: escola, jacobinos, sistema de ensino
Aquele chefe de repartição pública era um bom homem, sobretudo incapaz de fazer o que quer que fosse que pudesse prejudicar um colega de trabalho. Por isso, sempre que por imperativo da lei, tinha que fornecer aos seus superiores a avaliação daqueles com quem trabalhava, independentemente de, no seu íntimo, saber muito bem quem eram os bons e os maus funcionários, invariavelmente ele escrevia na informação individual – “capaz e idóneo”. Tinha a alcunha de “Capacidónio”.
Mas a função pública estava cheia de “capacidónios” como é de calcular. E as apreciações profissionais dos funcionários públicas eram, na quase totalidade, de grau máximo - “excelente”. Aí começou a haver algum pudor por parte dos responsáveis superiores dos diversos Ministérios. Eram “excelentes” a mais! Havia que impor alguma moderação. E criaram-se quotas para os resultados das avaliações. Os “excelentes” só poderiam ser uns tantos. - "Até parecia mal!.. Os outros teriam que se conformara com valorizações mais modestas. Em regra não conformaram. O resultado foi o do costume: foram para a rua gritar palavras de ordem, que falavam de Cravos e Abril.
Tem que entender-se a os mecanismos mentais subjacentes: - superior hierárquico no sector público que, independentemente da informação que der, vai ter de conviver diariamente com essas mesmas pessoas que avalia, sejam competentes ou incompetentes; cuja produtividade não o afecta no seu próprio salário nem coloca em risco o seu emprego, só tem que não fazer inimigos nem criar um ambiente de hostilidade dentro do seu local de trabalho. Seria pouco prudente, se não seguisse aquele ensinamento do Evangelho expresso na Parábola do “Feitor Infiel” (Lucas XVI, 1.13).
Isto ocorre-me quando, enquadrado pelos sindicatos comunistas (há outros?!), um ruidoso movimento de professores está na rua, protestando contra as avaliações de desempenho que o Ministério lhes quis impor.Digo quis, porque de intenção, esta directiva não vai passar. O poder, e sobretudo os votos, não estão no Ministério... Como de costume o governo, com eleições por perto, vai tentar salvar a face e de recuo em recuo vai deixar andar até que a questão se esgote por si mesma.
Atenção que (dizem eles) não estão em protesto contra a existência de uma avaliação ao seu desempenho profissional (porque pareceria mal, digo eu)! Estão sim, contra “este” modelo de avaliação. E estarão certamente também contra o próximo e outro que venha a seguir, que não consagre exclusivamente, a pura e simples auto-avaliação (os sindicatos de professores, já a propuseram) como único critério valorativo da sua competência profissional.
– “Quem, melhor do que eu (pensa a maioria deles), tem competência para avaliar até que ponto sou excelente?!”. E dizem mais: - “Não queremos quotas!”.É, assim como o emergir de um novo direito laboral – o direito, sem restrições, dos professores serem proclamados "excelentes", ainda que essa avaliação provenha apenas dos respectivos umbigos. A psicose do igualitarismo contaminou de forma tão obsessiva o pensamento nos nossos dias, que parece razoável aplicá-la também nestes casos: “Todos Iguais Todos Excelentes!” ficava bem numa tarjeta de início de manifestação de rua, não ficava?
Mas, pergunta-se o país, quais os resultados reais e mesuráveis do trabalho destes “excelentes” profissionais e responsáveis pelo ensino no decorrer dos anos? A resposta é por demais conhecida. Trinta anos de educação com matriz de esquerda, de milhares de reuniões inconclusivas, de carradas de sábios que vem ganhando dinheiro à custa do ensino - supostos técnicos de tudo e mais alguma coisa, pedagogos, psicólogos, orientadores vários, - tudo gente tão bem paga quanto inutil, na generalidade - os indicadores do importante investimento que o país faz na escola, estão por aí. São conhecidos. Deixo à socióloga Maria Filomena Mónica a síntese: “ (...) cerca de um terço dos alunos que terminam a escolaridade obrigatória não sabe fazer contas, e um quinto, não sabe escrever”.
Etiquetas: avaliação, escola, excelência, umbigos

Etiquetas: função pública, sindicato, unicidade sindical
A Revolução da Maria da Fonte quase levou os especuladores financeiros à bancarrota. No último momento foram salvos pela fusão da Companhia Confiança Nacional com o Banco de Lisboa. Desta operação nasceu o Banco de Portugal há 160 anos. Filho da especulação desenfreada que então reinava em Portugal e de um golpe palaciano da rainha D.Maria II, o Banco teve uma génese complicada, de que ainda hoje parece ressentir-se, como se pode constatar pela actual contestação à sua função reguladora do sistema bancário português.
Logo em 1834, após a vitória liberal, se registaram negócios de grande vulto e escrúpulos diminutos. Os bens tomados às ordens religiosas foram vendidos. Concentraram-se em muito pouca mãos as melhores fatias, como a Companhia da Lezírias, que em 1835 se estimava divisível por 500 a 600 exploradores agrícolas viáveis. Os mais ricos puderam pagar, muitas vezes com títulos de dívida pública que aos cofres do Estado não traziam nenhum metal sonante, e ficaram com tudo num leilão em que os pequenos arrematadores também era supostos terem alguma chance.
A especulação propiciada pelo golpe da direita cartista, em 1842, tinha, portanto, os seus antecedentes e as suas raízes. O Governo de Costa Cabral anunciou obras públicas importantes e adjudicou essas obras. As companhias adjudicatárias ficavam com o direito de cobrar portagens nas estadas construídas. As companhias das Obras Públicas e a das Estradas do Minho criaram-se na mira desse dinheiro fácil – não com empresários de obras, observava Oliveira Martins, - mas como intermediários entre o Estado e aqueles que efectivamente viriam a prestar o serviço.
O Governo entregou também a companhias capitalistas os monopólios das mais rentáveis actividades económicas. Em troca dum empréstimo de 4.000 contos à Fazenda – cerca de 20 mil euros actuais -, a Companhia Confiança Nacional obteve a concessão por 12 anos do tabaco, do sabão e da pólvora. Em conjunto com figuras gradas do Banco de Lisboa e da Associação Comercial, a Companhia criou uma nova empresa destinada a explorar a concessão. Para contratos deste tipo, deixou-se livre curso à criação dum mercado onde formigavam subconcessionários dispostos a pagar por eles, e não desdenhavam a eventualidade de, depois, os trespassarem com mais algum lucro adicional. Destas companhias falava José da Silva Carvalho, várias vezes ministro da Fazenda, como de “covis onde se anicharam tantos ladrões”.
À especulação comercial da década anterior veio juntar-se uma especulação financeira cada vez mais intensa. As companhias ofereciam juros elevados para captar capitais livres e concediam abundantes créditos ao Estado. O Banco de Lisboa emitia notas, e a Companhia Confiança Nacional obtinha bom dinheiro pelas suas promissórias. A bolha especulativa não parava de inchar. O que as companhias arrecadavam do lado do Tesouro não era menos importante.
O Estado tratava de pagar as suas dívidas lançando novos impostos, principalmente indirectos – cegos e penalizadores dos pobres, como costumam ser os impostos indirectos. Para a cobrança de impostos directos, tornavam-se entretanto visita frequente e odiada nas aldeias os avaliadores da Fazenda. Os pequenos camponeses, ensanduichados entre as obrigações feudais ainda não abolidas e a carga fiscal já reclamada pela moderna especulação capitalista, ferviam de fúria.
Em Março de 1846 estalou a Revolta da Maria da Fonte. Os liberais de salão pintaram as multidões como um mulherio desgrenhado, analfabeto e cacicado por padres miguelistas. A lendária camponesa do lugar da Fonte teria sublevado províncias inteiras contra as leis de saúde modernas, que proibiam a sepultura nas igrejas.
Fosse qual fosse o rastilho, sabe-se de ciência certa que a grande massa de combustível tinha a ver com a manutenção dos odiados tributos feudais, com o lançamento de novos impostos, com o pagamento de novas portagens. A agitação em torno dos funerais rapidamente deu lugar a agressões contra agentes da Fazenda.
Um pouco por todo o lado, foram incendiados arquivos onde se encontravam folhas de impostos ou registos dos anacrónicos encargos foreiros. No fogo deviam desaparecer as “papeletas da ladroeira” com expressivamente lhes chamava o povo sublevado.
As expedições punitivas enviadas de Lisboa foram fracassando. Lúcido, Costa Cabral reconhecia nas Cortes que “esta revolução é diferente das outras”. Num século que, ainda antes de chegar a meio, já tinha visto dúzias de quarteladas – vilafrancadas, martinhadas, belenzadas, emboscadas e outros golpes castrenses – era novo ver homens de foice e roçadora em punho a enfrentarem as tropas e tropas a passarem-se para o lado dos revoltosos. Entre Março e Abril a revolta alastrou a todo o Minho, e os sátrapas cabralinos foram sendo substituídos, em cada povoado, por novas autoridade eleitas em assembleias. Entretanto Costa Cabral abandonava o poder e refugiava-se em Espanha.
A primeira medida do novo Ministério de Palmela destinou-se a salvar os negócios dos agiotas. As bolhas especulativas podem rebentar por diversos motivos – entre elas por motivo de revolução. O movimento da Maria da Fonte tinha muito mais de revolução autêntica do que nenhuma das habituais quarteladas dos generais. a fixação intuitiva dos camponeses nas “papeletas da ladroeira” fazia os especuladores recear o pior. Enfiando uma carapaça que na verdade lhes servia, eles começaram a imaginar o que aconteceria às suas próprias “papeletas” – dos bancos, das companhias, dos contratos monopólicos – no dia, talvez próximo, em que os artesãos, os operários, os lojistas, fossem contagiados pela piromania vinda do campo. Desfazer-se dessas “papeletas” tornou-se de súbito uma obsessão para todos os que, até à véspera só sabiam correr a açambarcá-las. A bolha rebentou e o valor dos papéis caiu a pique.
O novo governo apressou-se a pôr a mão por baixo às notas do Banco de Lisboa e às promissórias, em queda livre, da Companhia Confiança Nacional. Decretou o curso forçado dumas e doutras durante 3 meses. O Banco de Lisboa, viu-se ultrapassado pelos acontecimentos quando as suas notas começaram a ser trocadas a toda a pressa. Por ter aberto demasiado crédito ao Tesouro, ele achava-se de súbito incapaz de resgatar as suas notas. Ao Estado, que era seu devedor, competiria impedir a bancarrota. Na verdade, com a falência da Confiança Nacional só se afundariam as inflacionadas expectativas de lucro dos especuladores. Não obstante, o Governo de Palmela decidiu socorrer ambos os náufragos.
Contudo, Banco emissor e Companhia continuavam à beira do abismo. Salvos ambos por uma moratória, viam-se dispensados de converter os seus papéis em numerário que não tinham. Mas o numerário que lhes faltava iria continuar a faltar. Sucessivas moratórias levaram o período até Dezembro, eram só outros tantos remendos. Ao mesmo tempo este Governo estava atarefado em aliviar e descomprimir a tensão no campo: em Junho promulgou-se uma nova lei de forais, ratificou-se a abolição das obrigações feudais, amnistiando três quartos das rendas em dívida desde 1832, prorrogando prazos para liquidação fiscal e anulando multas de até aí. Medidas mínimas e, mesmo assim, desagradáveis para os especuladores financeiros, que conheciam a fragilidade do seu castelo de cartas e sabiam que bastaria um espirro para o deitar por terra.
Entre o pavor dos campos assolados por uma insurreição incontrolável e das cidades sublevadas pelo Setembrismo, entre o desgosto pelos tons vagamente reformadores do Governo e pela sua pouca eficiência na operação de socorro aos valores especulados – a agiotagem decidiu passar à acção. Já não lhe bastavam moratórias nem adiamentos. Precisava duma solução de fundo. Começando por cima, ganhou para o seu golpe de estado a rainha e o marechal Saldanha. Em 6 de Outubro, a boa senhora chamou Palmela ao palácio real, prendeu-o e nomeou Saldanha para o seu lugar.
A solução de fundo não tardou. O novo governo promulgou legislação obrigando a aceitar os papéis desacreditados e fixando multas pesadas, ou mesmo degredo, para quem recusasse recebê-los. Depois decretou a fusão da moribunda Companhia Confiança Nacional com o Banco de Lisboa. Como num sistema de vasos comunicantes, as promissórias da Companhia penduravam-se nas notas do Banco. Graças à fusão o valor das acções da companhia moribunda viu-se subitamente triplicado. Assim se eclipsavam as moratórias e nascia em 19 de Novembro o Banco de Portugal – filho da especulação financeira e do golpe palaciano de especuladores e agiotas.
O banco recém-nascido não esperou para ocupar a sua posição nas trincheiras da rainha e do marechal putchista ( Saldanha foi o homem que mais pronunciamentos desencadeou em oito séculos de história portuguesa). Entrou para a guerra depauperado pela transfusão com que salvara os especuladores e saiu dela ainda mais exausto por massivos desembolsos de moeda metálica. Em Junho de 1847, o Paço da rainha ganhava a guerra contra os pés-descalços, e o Banco de Portugal punha mãos à obra de reconstruir as suas reservas. Em Setembro ele conseguia do Governo, que se voltasse a exigir nos pagamentos à Fazenda metade em moeda metálica – contra um terço que se estava exigindo desde Junho. O fim da guerra, argumentava-se, logo reanimaria a procura das notas. Mas a ilusão durou pouco. Em Dezembro, o Governo punha fim ao curso forçado, anunciando, entre outras medidas que passaria a aceitar as notas pela sua cotação, e não mais pelo seu valor nominal.
Ao longo do tempo o Banco de Portugal, manifestou uma vocação conspirativa e tomba-governos. Em 1850 o ministro da Fazenda, António José de Ávila, adoptou uma política que tendia a fazer do Estado cliente da Companhia do Tabaco, nas mesmas operações em que antes solicitava o Banco de Portugal. Logo o lóbi parlamentar do banco reagiu com violência, tentando derrubar o ministério. Seguiu-se uma altercação parlamentar, com deputados a acusarem-se uns aos outros de lutarem pelas suas próprias “manjedouras”. E tudo desaguou novamente num golpe de estado de Saldanha, a defender os interesses do Banco de Portugal, contra os da Companhia do Tabaco.
Fonte: Texto de António Louçã – Expresso.
Etiquetas: Banco de Portugal, especulação, Maria da Fonte

Etiquetas: especulação financeira, subprime, Vinhas da Ira
Publicado em 1572, os Lusíadas de Luís Vaz de Camões têm sido considerados o maior poema épico da língua portuguesa. É uma epopeia moderna, em que o maravilhoso não passa dum artifício necessário, mas apenas literário.
Como texto renascentista, não poderia deixar de seguir a estética grega. com recurso a personagens mitológicas. Aliás dá também particular importância ao “número de ouro” ou à “proporção divina” como outros a designam. Assim, o clímax da narrativa, a chegada à Índia, é colocada no ponto, que divide exactamente a obra, segundo a proporção áurea (início do Canto VII).
Mas, será que estamos a interpretar os Lusíadas da forma mais correcta?
O consenso geral, é que o fio condutor do poema assenta na narrativa da viagem de Vasco da Gama à Índia, e através dela, Camões evoca e enaltece toda a epopeia do povo lusitano ao longo dos tempos. Como o título indica, o herói desta epopeia é colectivo, os Lusíadas, ou os filhos de Luso...
O historiador José Hermano Saraiva, certamente a maior autoridade actual sobre Camões e a sua obra, tem uma teoria bastante diferente da que vem fazendo consenso na cultura portuguesa, sobre o poema e o poeta. Ele afirma ter encontrado a chave da biografia camoniana, na própria autobiografia de Camões. Cito-o:
“Aquilo é codificado e todo o código tem uma decifração. Esse código encontrei-o na vida pessoal do Camões. Toda a poesia de Camões é fortemente auto-biográfica. Os grande poemas, todas as canções, todas as odes, todas as elegias ... todos os Lusíadas por exemplo, são fortemente auto pessoais.”
Os próprio Lusíadas são de tal maneira autobiográficos, que eu penso que a palavra “Lusíada” quer dizer “a vida de Luís”. “Lusi” é Luís, é um anagrama de Luís...
Provém de Luso!? Qual história!!!... Depois vieram com essa história do “luso”....Não há razão nenhuma para pensar nisso. Eu penso que “Lusíada” tem a ver com o nome “Luís”...Não é a epopeia dos lusos, mas a do Luís. Como a Eneida é a epopeia do Eneias; como a Odisseia é a epopeia do Odisseus (ou Ulisses) Odisseus é o nome em grego. Os poemas clássicos têm o nome do herói. E aqui o herói não é o Vasco da Gama, é o Luís de Camões. E, do princípio ao fim, o Camões está a falar de si próprio".
Se a razão está do lado do Professor José Hermano Saraiva, e Lusíadas tem a ver com Luís e não com Luso, já se viu quantas expressões vão ficar vazias de sentido e ter que ser corrigidas, no português que falamos lemos e escrevemos todos os dias?
Uma consulta aos verbetes principais de um motor de busca, encontra imediatamente: “Povo lusíada, Universidade Lusíada, Editora Lusíada, poema A Alma Lusíada, Fundação Lusíada, Avenida Lusíada, Quarteto Lusíada, Padaria Lusíada, livro A Era Lusíada , trova de amor Lusíada , Cultura Lusíada...
E quantos notáveis da política e do “mainstream” vão concluir que o diploma académico, que ostentam com tanto orgulho, atesta apenas que se licenciarem na “Universidade do Luís”. Que Bronca!
Créditos para: Programa Quinta Essência (RTP2) e Google
Etiquetas: camões, José Hermano Saraiva, lusíadas
Em política não há coincidências. Quando vi a série de TV “24 horas” percebi que as forças económico-políticas que determinam a produção de Hollywood, estavam a preparar a opinião pública norte-americana para aceitar uma candidatura às eleições presidenciais, em rotura com a tradição e passado histórico da nação, ou, dito de forma mais directa, o candidato não seria um homem branco.
Portanto aí está o afro-americano Obama, a ser alavancados na senda que o pode conduzir à presidência dos EUA. Ele pode ser um político desinteressante, não muito diferentes de tantos outros, mas, que ninguém se iluda: se ganhar, o seu principal trunfo vai estar na cor da pele, muito mais do que nas suas propostas políticas. O “24 Horas” tudo fez para desbravar esse caminho.
Muitos Republicanos e conservadores em geral não são racistas – embora haja alguns que o sejam e alguns Democratas e Liberais também – mas não vêem a menor necessidade de colocar um negro como presidente num futuro próximo. Ou simplesmente não pensam que isso seja possível proximamente. Os Conservadores em geral são figuras práticas, não muito dados a sonhos e fantasias que eles não vejam como viáveis.
Nesta série “24 Horas” como noutras semelhantes, não só o presidente americano é negro, - papel, aliás interpretado por um excelente actor -, como os personagens principais cheios de virtude (os “bons”), provém de minorias raciais. Já os “maus”, os que atentam contra a vida das pessoas, contra a nação e colaboram com o terror, são sempre brancos, a começar pelo vice-presidente.
Esta é a visão de uma certa América que se julga progressista. A virtude segundo eles, vem com a raça e o género. Logo, um neo-racismo anti-branco, que se manifesta em aberrações sociais e atentados à dignidade e inteligência humana como são as “políticas de quotas”.
O mundo que 24 Horas mostra, é um prato cheio para os críticos das instituições: funcionários do governo traidores, facilidade de acção dos terroristas, agentes que não hesitam em matar. É o retrato que o filme procura dar de governabilidade e dos EUA.
Nada mais fácil ou melhor do que ter recursos, como tem Hollywood, para retratar quem eles não gostam. E pobre de quem assiste aquilo achando que é a tradução da verdade! A TV tem essa magnífica possibilidade de mostrar os outros como eles os vêem, e mostrar seu ponto de vista ao mundo.

Etiquetas: 11/9, bombas, control damage, judeus, Resistência