Balada para D.Quixote

Um olhar de viajante na última carruagem do último combóio de uma Memória intemporal.

A minha fotografia
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Localização: Covilhã, Portugal

A generalidade daquilo que você (e eu) julgamos saber, pode estar errado, porque, em regra, assenta em «informação» com falta de rigor e imparcialidade, vinda de quem interessa formatar a nossa mente. Pense você mesmo! Eu faço-o!

4.3.12

Liberte-se do Stress Desportivo

Só há lugar para um Campeão. E esse é o que ao longo da época desportiva demonstre - mais incidente, menos incidente, mais justiça desportiva, menos justiça desportiva, mais favoritismo ou menos, que foi o melhor. Os outros, os que vem atrás são, mais lugar menos lugar, os últimos. Até à próxima época...

Para aqueles a quem isso trás desconforto e decepção, muito mais do que alegrias e festejos, há formas de nos libertarmos da escravatura psicológica da dependência desportiva. É relativizá-la. Apenas isto. Se por desgraça os nossos afectos e ambições de glória vão para «o clube» da nossa terra», é mais difícil...

Se as cores de que gostamos se encontram em organismos desportivos de dimensão nacional, e nos queremos proteger dos efeitos nocivos do «stress» então, no mínimo, continuemos naturalmente a gostar, mas exige-se que sejamos algo mais objectivos e pragmáticos e, pelo menos, que não vivamos os eventos imediatamente online ou em cima deles. As possibilidades de ficarmos com o resto do dia estragado, são reais.

Ser Campeão é muito bom por todas as razões. Até porque depois entra-se num círculo vicioso. Quem ganha, além dos troféus desportivos tem também os prémios pecuniários, que até nem são poucos; entra nas mais bem remuneradas Ligas internacionais, valoriza os seus activos humanos e desportivos, consegue adquirir bons atletas emergentes e ambiciosos de glória, em suma, ganha dinheiro, vende caro, pode comprar bom e barato. Perfila-se, para repetir a façanha desportiva na próxima época e as suas probabilidades de ter nisso sucesso, são grandes.

 Logo, se o clube da nossa simpatia não é (porque por várias razões incluindo as económicas), não pode ser, o maior, ou seja o campeão, e nesta coisa apenas há lugar para UM e os OUTROS, desde logo nos devemos capacitar que o nosso é muito provavelmente um dos outros, ou seja que, mais atrás ou mais à frente, é um dos últimos.

Mas, nesta posição relativa, os outros, nem sempre têm uma relação directa com o somatório de todos os méritos e valores activos (desportivos e económicos) de que cada equipa dispõe. Há ainda uma «nuance» que não é desprezível. Frequentemente, consoante o estatuto do adversário ou a posição pontual que vão ocupando nas tabelas classificativas, muitas equipas tendem, perante certos adversários mais cotados, a empenhar-se até limites só imagináveis face a estimulantes psicogénicos ou, por contraste, a entrar na mais pura monotonia competitiva e ausência de emoção quando perante equipas equivalentes.

É então que equipas relativamente modestas conseguem com adversários de topo de gama, resultados, que fazem as manchetes dos jornais do dia seguinte, quando na jornada anterior ou na seguinte empataram ou perderam em casa contra a equipa menos classificada do torneio.
Isto, porque vêem nos confrontos com as  equipas aspirantes ao título, verdadeiras oportunidades para brilharem, um palco mediático para se exibirem perante os media, clubes, empresários e seleccionadores desportivos.

É um facto. Necessita de muito mais mérito desportivo, de técnica e de sorte um «Challanger» para ganhar um jogo a uma equipa mais modesta, do que necessitam uma par destas últimas para conseguir um resultado positivo perante a outra..Convém recordar que o futebol também é assim e que a escala de dificuldade das maiores equipas para atingirem o topo, se processa de uma forma geométrica e não aritmética.

Logo, parem de substituir treinadores a cada derrota mais inesperada. Futebol é assim. E porque é assim, convém também que o separemos tanto quanto possível das nossas emoções. Nas Lotarias e Apostas Mútuas não estamos constantemente a perder? E durante quanto tempo nos persiste a lembrança?

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1.5.11

Lê, Vê, e Passa Já aos Teus Contactos


Recebo, como praticamente toda a gente que anda aqui pela Internet imensos emails-circular. Designo-os assim, porque de autênticas circulares se trata: a sua finalidade principal é mesmo difundirem-se pelo ciberespaço, utilizando como veículo as listas de endereços que cada um possui, e que, conforme as situações, decide voluntariamente enviar, por sua vez, cópias para os endereços dos seus correspondentes habituais. 

Está mesmo a ver-se que tudo isto se propaga através de  um mecanismo exactamente igual ao dos vírus informáticos, só que neste caso – salvo raras excepções – são tecnicamente inócuos, e por vezes até bastante interessantes. Desta forma, formam-se grandes cadeias de difusão por todo o planeta Net.  

A consagração do trabalho feito na produção destes conteúdos e, a um nível imediatamente abaixo, dos que individualmente colaboraram passivamente na construção destas cadeias de comunicação, obtêm-se no momento em que o conteúdo em causa lhes entra de novo na caixa de correio electrónico, agora procedente de endereços diferentes daqueles para quem o enviou; aí, cada um por si, pode imaginar que o conteúdo original já percorreu um enorme caminho, eventualmente até poderá ter dado uma volta (ou mais do que uma) ao longo do universo Internet.

Estaremos certamente perante uma das manifestações da globalização, neste caso, de conteúdos que contêm algo a que se poderá chamar genericamente de «informação», - ainda que a informação, com um mínimo de qualidade ali contida é bastante escassa e dominada por colecções de diapositivos fotográficos; o que sobeja é, em regra, pouco mais do que lixo comunicacional: maledicência, humor de mau gosto, conselhos e ensinamentos idiotas, colagens de recortes de gosto discutível, etc.»

Por norma, eu agradeço pessoalmente os envios destes «email-circulares». Não obstante, grande parte deles vão imediatamente para a lixeira. Outras, quando entendo que os meus remetentes directos a montante o merecem, junto algumas palavras em jeito de opinião e comentário, não só para lhes dar uma evidência de que prestei atenção ao material que me enviaram,  como para tentar fazer alguma pedagogia e sugerir que esta forma de comunicação (ainda que nitidamente integrada em cadeias do tipo «Lê e Passa Depressa a Outros»), não impede que sobre ela façamos um comentário crítico. 
 
Mas até aqui as surpresas acontecem. Uma amiga e familiar, pessoa com um estatuto intelectual superior à média, enviou-me uma dessas «correntezinhas». Agradeci e fiz um breve comentário, que não lhe deve ter agradado inteiramente. Contra-argumentou como entendeu, finalizando por tentar justificar a minha maneira diferente de ver a questão com um, supostamente humorado, remate:  “…És um filósofo!”.

O rótulo de “filósofo” não é novo para mim. Já o ouvi imensas vezes, e nunca o senti aplicado como uma prova de apreço ou elogio – pelo contrário. Provavelmente até terão razão na aplicação do epíteto, porque será difícil encontrar outra palavra para classificar alguém que, como eu, teima em andar na contramão do pensamento único ecorrecto. Será então como dizer, «excêntrico», «irrealista, «desfasado do tempo», «utópico» ou algo assim. Seja o que seja.

Onde a minha amiga e correspondente me surpreendeu, é que ela, de tão embrenhada no ciclo permanente do receber e reencaminhar mensagens, que afinal é só uma outra forma de as «descartar» (ainda que as venhamos a gravar no nosso disco para posterior consulta … que, em regra, jamais é feita, porque não dispomos de tempo para tal, face ao constante afluxo de novas mensagens), teve, possivelmente a contragosto, uma reacção de rejeição para a hipótese de aproveitar o mote fornecido por uma desses email-circular, para discutirmos a questão (que até era importante em si mesma) e, por fim, darmos alguma originalidade que este circulo automatizado e infinito de intercâmbio não tem, porque, na essência, nada mais faz que reproduzir «reproduções» exaustivamente. 

Robotiza o processo da comunicação interpessoal e praticamente nada acrescenta ao saber e à cultura das pessoas que vivem em torno da Internet:  «Lê, Vê, e Passa Já aos Teus Contactos». É pouco. Precisamos de inovar, introduzir algo de novo, antes que esta área da Net se transforme num enorme bocejo… 

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3.1.11

Não Tem Que Ser Assim Para Sempre


Leio que uma tal “Frente Comum” dos sindicatos dos funcionários públicos, vai recorrer aos tribunais de uma decisão do governo sobre um corte de 5% na massa salarial da função pública. A tal Frente como se sabe, é uma das múltiplas organizações pseudo-laborais que tem como denominador comum, o sindicalismo comunista proposto para o mundo do trabalho nos países, e só nestes, em que os partidos comunistas não estão no poder. 

Acho bem! Está certíssimo! Até mais: acho que não há razão alguma sensata para que os conflitos no mundo do trabalho, tais como quaisquer outros conflitos da sociedade, possam ser decididos fora dos órgãos próprios que os Estados Democráticos – como grande conquista civilizacional – criaram para defender o Direito das pessoas; seja elas cidadãos, trabalhadores, empresários, ricos, pobres ou o que quer que seja. Os Tribunais. Este é um dos pilares das Constituições que regem as sociedades modernas: órgãos autónomos e independentes para fazer leis, para as executar e por fim para julgar e punir o seu eventual incumprimento.

Então, porque razão o mundo do trabalho há de ter um estatuto que, na prática, o coloca “acima” dos órgãos de Soberania?

Por que só aos sindicatos e trabalhadores é permitido resolverem os seus diferendos com o Estado ou Empresas, através de “formas de luta” que, sabemos bem, não se ficam muitas vezes no campo do simbólico, sobretudo quando tomam a forma de expressões socialmente violentas, caso de greves com a tomada de reféns inocentes (todas as do sector público), as ocupação de instalações públicas ou privadas, cortes nas vias de circulação ou no fornecimento de serviços fundamentais, formação de milícias armadas (disfarçadas de piquetes de greve)?

Qualquer destas coisas feitas por um grupo anónimo de cidadãos, levaria a que um Procurador Público os levasse perante os tribunais acusados de terem desrespeitado uma enorme quantidade de artigos do Código Penal. Mas, se os mesmos actos forem perpetrados por apaniguados de um Sindicato qualquer, o Estado e o Ministério da Justiça, lavam daí as mãos, e entendem confortavelmente, que não tem competência para intervir.

O chamado e tão incensado “direito à greve” é um absurdo social que só se mantém nas legislações nacionais devido ao fundamentalismo marxista que, por pura pusilanimidade continua a povoar a mente dos constitucionalistas e a movimentar o poderoso lóbi sindical. Mas não tem que ser assim para sempre!

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19.12.10

O Ano da Morte de António Sardinha e do "Mein Kampf"

“A lusitana antiga liberdade” do verso de Luís de Camões era uma referência de António Sardinha, um dos teóricos do Integralismo Lusitano. 

Intelectual importante e mal compreendido na época,  morreu cedo, em 1925, com apenas 37 anos, mas ele, como poucos, soube exprimir muitas das ideias políticas atávicas que estão no âmago do “povo português”, se é que de tal ainda existe e dele se pode falar após a globalização. Há, por enquanto, uma nação, Portugal, mas já é bastante duvidoso se ela ainda é habitada maioritariamente por portugueses. Por lusos.

Sardinha era um tradicionalista, adepto de um estado orgânico anti-parlamentar e da ideia de uma maior coesão das nações hispânicas rumo a uma unidade política e económica. Alguns atribuem-lhe um certo anti-iberismo. Eu não penso assim. Mas o sonho da Grande Ibéria está , e continuará a estar, não se duvide, na mente de muitos portugueses e espanhóis
Já a aversão de Sardinha ao parlamentarismo, é em si tão óbvia, que já está tudo dito. Quantos de nós hoje, dos que não estamos na fila para prosseguir uma carreira política ou emprego público ajudados pelos Partidos, gostamos realmente do parlamentarismo?    

No ano da morte de António Sardinha e de certa maneira, também do Integralismo, novas ideias estavam a surgir. É o ano do lançamento do livro de Adolf Hitler “Mein Kampf” (A Minha Luta) que só em 1939 venderá quatro milhões de exemplares. O livro que aborda temas anti-semitas e racistas, defende sobretudo a hegemonia do poder das elites sobre as massas. 
O autor, marcadamente influenciado por uma cultura teutónica que lhe era anterior, com raízes em nomes como os de Nietzsche, Goethe, Fichte, Schopenhauer e Schiller, denuncia o Tratado de Paz de Versalhes que se seguiu à Primeira Guerra Mundial e preconiza a aniquilação da França e da Rússia. Nas suas teorias, Hitler será acompanhado por grandes vultos da intelectualidade, entre eles o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger.

As ideias expressas em “Mein Kampf” influenciaram o século XX e o decorrer da história da Europa e do Mundo como se sabe. Estranho, estranho mesmo, é que já em pelo século XXI, uma reedição do livro tenha sido apressadamente apreendida nas livrarias dando execução de uma medida judicial que “alguém” colocou perante os tribunais portugueses. Quem? Perguntar-se-á. Quem tem medo das ideias colocadas num livro publicado pela primeira vez há cerca de oitenta anos?


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24.11.10

Eutanásia real para o “prime-time” do “Times”?


Jorge V da Grã-Bretanha, o avô da actual rainha Isabel II, 
morre, de pneumonia no palácio de Buckingham em Janeiro de 1936. O mesmo acontecera já com o seu irmão mais velho Alberto 
que morreu com a mesma doença. 
Devido a isso Jorge V, ao ficar no topo da lista
da sucessão dinástica de Eduardo VII, ficou-lhe com também com o emprego. Mas não só. Ficou-lhe igualmente com a noiva, 
a princesa Maria de Teck. 

O casamento realizou-se em 1893 e resultou em seis filhos, entre os quais o Duque de Windsor e Jorge VI, pai de Isabel II. O falecimento do rei, já na época foi objecto de boatos e comentários pouco ou nada «oficiosos». 
Disse-se insistentemente que os médicos do rei, com a aprovação do governo, administraram ao moribundo uma dose fatal de morfina, de maneira a que a morte do rei ocorresse a tempo de ser anunciada no "The Times" do dia seguinte, e não nos tablóides plebeus que saiam para a rua algumas horas depois.

O rei era realmente um fumador inveterado, com diversos problemas pulmonares e respiratórios há muito detectados. Ainda assim viveu 70 anos. Apenas se poderá hoje imaginar o “boom” mediático, que os fundamentalistas anti-tabaco não aproveitariam para desencadear em todo o mundo com base nesta morte, se ela tivesse ocorrido alguns anos mais tarde, quando a sua histeria pseudo-científica já contagiava o mundo. Iriam certamente concentrar a atenção das pessoas com tal intensidade que, eventualmente, o Al Gore e sua discutível teoria dos glaciares em degradação e do aquecimento, teriam passado quase despercebidos. Pode dizer-se que o tabaco matou o rei. Mas só ao fim de 70 anos.

A Jorge V sucedeu o seu filho Eduardo VIII que teria de abdicar do trono, tornando-se  Duque de Windsor, para se casar com uma mulher que não era nobre, Wallis Simpson. Basta olhar para as histórias escabrosas que ocorreram posteriormente com alguns membros desta família real, para encarar este acto com imensa ironia.

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23.11.10

Lázaro Não Ressuscitou!


Este Lázaro, Francisco do seu primeiro nome, um homem simples, carpinteiro de profissão, nascido na freguesia lisboeta de Benfica, iria ficar para a História como a primeira vítima mortal dos Jogos Olímpicos. Tombou definitivamente em 22 de Julho de 1912 ao quilómetro 30 da corrida da Maratona, algures numa avenida de Estocolmo, vítima de insolação. 

Sem os avanços que a medicina desportiva dispensa aos atletas actuais, Lázaro, que era um forte favorito ao triunfo da corrida,  limitou-se, por sua própria iniciativa e não se sabe com que finalidade, a untar o corpo com sebo;  de seguida entre os mais de 70 concorrentes enfrentou, sem protecção para a cabeça, o Sol escaldante de um verão escandinavo excepcionalmente quente.

Lázaro coleccionou triunfos a poucos meses das olimpíadas de Estocolmo e nele eram depositadas grandes esperanças. Foi o clima de euforia criado em torno do atleta  que contribuiu para que fossem ultrapassados os problemas financeiros que chegaram a ameaçar a sua presença nesses Jogos Olímpicos. Curiosamente, já na Suécia, o atleta foi sujeito a uma rigorosa inspecção médica que o deu como apto para a prova que ia disputar.

O corpo de Lázaro esteve depositado numa igreja católica de Estocolmo durante dois meses à espera de ser trasladado para Portugal, devido apenas a entraves burocráticos e certamente não por alguém estar à espera da repetição do milagre bíblico. O seu funeral, com milhares de pessoas só pode fazer-se em 23 de Setembro. Não trouxe uma das ambicionadas medalhas mas deixou com os portugueses a eterna memória do seu esforço desportivo.

14.11.10

Amor, Para Além de Pedro e Inês

D. Estefânia de Hohenzollern

Dia de S. Martinho em Portugal. Decorria o ano de 1911. O Rei D. Pedro V morre subitamente no Palácio das necessidades. Tinha 24 anos e apenas seis de reinado. Não foi de modo algum um triste rei, mas foi um rei triste. 

A mulher com quem casara em Abril de 1857, a rainha D. Estefânia de Hohenzollern morrera exactamente com a mesma idade vitimada pela difteria 14 meses após o casamento. Julga-se que se amavam verdadeiramente. Na carta derradeira que escreveu à sua mãe, a rainha diz-lhe “que tinha sido sempre feliz em Portugal” e aos que a rodeavam no momento da morte: – “consolem o meu Pedro!

Quando se procura exemplos de amor entre personagens da História de Portugal, tende a sobrevalorizar-se Pedro e Inês de Castro e a esquecer esta outra história de amor igualmente trágica: a de Pedro e Estefânia.

D. Pedro V  no dizer dos biógrafos, "com um temperamento observador, grave, desde criança  mandou pôr à porta do seu palácio uma caixa verde, cuja chave guardava, para que o seu povo pudesse falar-lhe com franqueza, queixar-se.  O povo começava a amar a bondade e a justiça de um rei tão triste.


Morreu com apenas 24 anos, em 11 de Novembro de 1861,  segundo parecer dos médicos, devido a febre tifóide (enquanto o povo suspeitava de envenenamento e por isso viria a amotinar-se). Portugal é, por essa altura, flagelado por duas epidemias, uma de cólera, que grassa de 1853 a 1856, e outra de febre amarela. Durante esses anos o monarca, em vez de se refugiar, percorria os hospitais e demorava-se à cabeceira dos doentes, o que lhe trouxe muita popularidade e provavelmente o contágio com a doença.  

Foi um defensor acérrimo da abolição da escravatura, e data do seu reinado um episódio que atesta a convicção do monarca nessa matéria e que simultaneamente demonstra a fragilidade de Portugal perante as grandes potências europeias: junto à costa de Moçambique é apresado um navio negreiro francês (Charles et George), tendo o seu comandante sido preso. O governo de França, não só exigiu a libertação do navio, bem como uma humilhante e avultada indemnização ao governo português.

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5.11.10

Por Favor Não Me Torçam o Pescoço!


Tentem ler o título de livros que estejam armazenados verticalmente numa qualquer estante de livraria ou biblioteca, através da sua lombada. 

Logo, logo, constatarão que são obrigados a fazer constantemente desconfortáveis flexões com a cabeça ora para um lado ora para outro, para colocarem o olhar em posição que possibilite a leitura do título da esquerda para a direita como é convencional na nossa escrita . Isto por uma razão apenas. O referido título impresso na  lombada, poderá ser legível no sentido da base para o topo do livro, ou precisamente ao contrário, no sentido topo-base. Isto porquê? Porque parece ficar ao inteiro arbítrio do editor a escolha desse importante pormenor.

Ou seja, numerosos organismos internacionais, entre os quais a nossa União Europeia, esforçam-se por conseguir padrões de normalização e certificação das mais diversas coisas – do tamanho dos preservativos às normas contabilísticas ou à soldadura de metais – produzem dezenas e dezenas de directivas sobre livros e publicações … mas parece que até ao momento a ninguém ocorreu “normalizar” este pequeno aspecto na edição de livros. Então aqui fica uma sugestão para um dos parlamentares europeus que queira mostrar serviço, propor naquele organismo super-regulador, algo extremamente útil para quem consulta livros.  Valeu, snr/a Deputada?!...

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20.8.10

Contrariamente ao que aparenta, é escassa a possível escolha de um livro numa destas modernas superfícies comerciais. Títulos, há e muitos. Porém o conteúdo espectável deles é, por regra, confrangedor.

O padrão literário segue as modas e ideias mais mediatizadas. As ideias e as modas tem, também elas, a mesma origem e quase sempre o mesmo ciclo de vida. Como modas, um dia também passarão de moda.

A presença da mulheres-escritoras é, como em muitas outras actividade de cariz não-físico, absolutamente dominante. E sobre que escrevem elas? Obviamente sobre mulheres e crianças maltratadas fisica e sexualmente, sobre a situação da mulher perante a cultura islâmica, denunciando certos hábitos culturais do Ocidente como castradores da sua liberdade e condição feminina como o casamento e o conceito de adultério, etc.

Os homens escrevem, mas a diversidade de argumentos literários também não prima pela originalidade, caindo - mais uma vez as modas mediáticas - na influência da autêntica “linha de produção” que teve início com o primeiro livro de Dan Brown, o Código Da Vinci e prossegue com a exploração até à exaustão de temas ficcionados histórico-religiosos.

Um terceiro sector livreiro, é bastante mais antigo e indispensável em qualquer estante de livraria: os livros de auto-ajuda. Este também têm vindo a evoluir no sentido da diversidade. Supostamente as pessoas, ou o marketing por elas faz-nos crer que para além do habitual “Como Fazer…” ou “Como Ter Sucesso em…” tradicionais, passou a haver também uma obsessão com o corpo. Nessa linha passou a haver uma oferta que quase supera a anterior. Um grande parte incidindo sobre a fobia social (e médica) que passou a rodear o peso corporal; e os títulos aí estão: “Como Emagrecer em … dias”, “Emagrecer Sem Fazer Dieta”, “Como Perdi 80 kg em 14 Semanas” etc. É só escolher e fazer a dieta recomendada por esses novos “especialistas” na nutrição: comer alface e cenoura, beber só água, mas tudo isso “com moderação”.

12.3.10

Se, Quando, Com Quem e Como

As técnicas de controle da natalidade em especial a pílula anti-conceptiva, vieram, numa primeira fase, dar à mulher um poder discricionário sobre o «Se», o «Quando» e o «Com quem procriar».

Actualmente está em causa, devido aos «avanços da ciência médica uma: realidade prática: elas também podem escolher «Onde» (em que útero  se processa a gestação - ou uma parte importante dela - do feto e por fim, “Como” querem que se processe o acto do nascimento – da forma clássica, possivelmente algo dolorosa e traumatizante  - no tipo «bébé-na-mão» através de  uma intervenção cirúrgica feita a pedido. 

A ciência faculta-lhes ainda, em certos casos, a escolha do sexo da futura criatura, o número de fetos a que se lhes dará viabilidade, quando devido às técnicas de procriação medicamente assistida, a natureza se «vinga» e cria, ela própria, múltiplos gémeos e por fim .a eliminação física de alguns  candidatos à vida, não desejados por razões arbitrária da, ou dos, progenitores, uma vez que os pré-nascituros ainda não beneficiam de protecção legal.

Admirável Mundo Novo? Talvez não.


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Trabalhador e Perguiça

"O homem é naturalmente dado à preguiça. Sob o capitalismo os trabalhadores têm que procurar trabalho para sobreviverem. É o mercado capitalista que acicata o trabalhador. Sob o socialismo, «a utilização dos recursos do trabalho substitui o mercado». O Estado tem, pois, a missão de orientar, de colocar, de enquadrar o trabalhador, que deve obedecer como um soldado, ao Estado operário, defensor dos interesses do proletariado". (Trotski em 1919)

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Extermínio

«Para quê um comissário do povo para a Justiça?» perguntou então Steinberg a Lenine. «Mais vale chamar-lhe comissariado do povo para o extermínio social, e todos entenderão!» «Excelente ideia» respondeu Lenine. «É exactamente assim que vejo a coisa.Infelizmente não podemos dar-lhe esse nome!»

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1.3.10

Os Meus Recortes

«A riqueza móvel da península Hispânica residia toda nas mãos dos judeus; os fundos de raiz passaram pouco a pouco para a sua posse , através da usura e da compra das propriedades da nobreza endividada. Desde o lugar de Secretário de Estado ao de Ministro das Finanças, todas as funções que se relacionavam com dinheiro ou impostos estavam nas mãos de judeus» (Die Historische Weltstelleng der Juden - 1882)

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25.2.10

Os Meus Recortes

“Um Banco ou uma Companhia não vive como o comum das pessoas, porque essas entidades não comem carne ou respiram ar. Respiram lucros; comem os juros sobre o dinheiro. Se os não tiverem, morrem...”(...) “... o Banco - o Monstro tem de recolher sempre lucros. Não pode esperar. Os juros tem que estar continuamente a subir. Quando o Monstro para de crescer, morre. Não pode estar sempre do mesmo tamanho.”(...) “O Banco é alguma coisa mais do que homens. Acontece que todos os homens odeiam o que o Banco faz e, todavia, o Banco continua a fazê-lo. O Banco é alguma coisa mais do que os homens, acreditem. É o Monstro. Os homens fizeram-no mas não o podem controlar. (John Steinbeck – As vinhas da Ira)

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20.2.10

Recortes

"... por acaso o “apóstolo” Martin Luter King quando morreu estava acompanhado de três prostitutas, coisa que geralmente é omitida pelo seus iconoclastas."

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18.2.10

Os Meus Recortes

"As sociedades actuais são cada vez mais pós-industriais, de serviços e de informação, e estruturadas numa miríade de pequenas empresas, muitas vezes familiares. O exército industrial de reserva, a concentração de massas operárias, as empresas fabris com milhares de trabalhadores foram substituídas. A ideologia de classe média e pequeno burguesa, a normalização cultural feita pelas televisões, a capilaridade social – o chauffeur de táxi que tem um filho advogado e o médico que tem um filho que serve à mesa num restaurante – destrói fundamentos de luta de classes como choque cultural, quase religioso." (José Miguel Júdice)

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17.2.10

Recortes

"Mulheres que eu conheço estão a pensar comercializar um boneco representativo do Novo Homem Sensível. Ao puxar-se um fio nas costas ele dirá: - “Querida descontrai-te, eu lavo a louça”, “Estás deslumbrante sem maquilhagem !”, “Vamos concentrar-nos apenas no teu prazer...” 
(Diane Ackerman - História Natural do Amor)

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15.1.10

Vem aí o Teófilo. Fujam!...



Palavras com «êxodo da população» e «refugiados», não é habitual serem referidas quando se fala na História da Covilhã. Mas, ainda que em escala mal definida, essas coisas aconteceram por aqui e o Pelourinho é, uma vez mais, testemunha desse tempo conturbado.

Basta que apontemos o ponteiro do tempo e da memória para o ano de 1919 do século XX. Em Janeiro, com a dramaticidade de um verdadeiro «salve-se-quem-puder», uma palavra de ordem  foi passando na população de boca em boca: - “Vêm aí o Teófilo. Fujam!”. Este episódio só o conheço devido a tradição oral que o trouxe até mim. Diversas vezes ouvi pessoas mais velhas referirem-se ao incidente, relatando que, - “...então muita gente abandonou as suas casas, de onde retirou apressadamente roupas, víveres e até imagens de santos, para se ir refugiar algures nos arredores e na floresta da encosta da Serra”.

O episódio tem um suporte histórico. É factual que em 10 de Janeiro de 1919 ocorreu uma «revolta republicana» na Covilhã e em outras cidades do país. Para forçar a rendição dos revoltosos, que ocorreria em 15 de Janeiro, veio ocupar militarmente a cidade uma coluna militar – ficou conhecida como a «coluna negra» - comandada pelo então tenente Teófilo Duarte.

Este era apoiante de Sidónio e curiosamente tinha estudado neste Distrito, no Colégio de São Fiel, próximo da Covilhã, um colégio dos jesuítas. Após a morte de Sidónio Pais, foi alto-comissário no distrito de Castelo Branco, tendo-se revoltado contra o governo de José Relvas. Para se entender algo que parece insólito – terem eclodido na Covilhã e em outros pontos do país «revoltas republicanas» - quando o República era o regime oficial do país desde 1910, terá que aprofundar-se um pouco o ambiente político e social que então se vivia em Portugal.

Sidónio Pais, justamente apelidado de Presidente-Rei, tinha «reinventado» a República e a Constituição de 1911 por forma a criar uma figura política, então ainda não conhecida no Portugal republicano: o presidencialismo. Fora assassinado em Lisboa um mês antes e o rasto político que deixara no país estava longe de se extinguir. Remotamente, as suas ideias para Portugal iriam ter continuidade no surgimento do Estado Novo após a revolução de 1926.

Para se compreender o que foi o consulado de Sidónio Pais – tão idolatrado pelo povo humilde e a expectativa benévola da União Operária Nacional, quanto odiado pelos republicanos mais radicais e pela sempre poderosa Maçonaria – bastará dar um pequeno exemplo: o Governo de Sidónio não tinha ministros, apenas secretários de Estado, ignorando completamente o Congresso dos Deputados que, por sua vez, o hostilizava abertamente.

O Congresso dos Deputados, aquele lugar onde seria suposto serem feitas serenamente e com competência as leis que iriam reger a República, era – infelizmente ainda é, muitas vezes - um local onde se fazia tudo por exibir o lado mais negativo do parlamentarismo – onde se trocavam insultos e acusações pessoais e políticas entre os congressistas, quando não bengaladas e desafios para duelos.

Interpretando tudo isso Sidónio entendeu que, no interesse superior do país, deveria ignorar por completo o Congresso e governar mesmo quando em evidente ruptura com a Constituição de 1911.
Noutro movimento inconstitucional, a 11 de Março de 1918 por decreto, estabeleceu o sufrágio directo e universal para a eleição do Presidente da República, subtraindo-se à necessidade de legitimação no Congresso e enveredando por uma via claramente plebiscitária. Sidónio Pais governava através de decretos, por vezes ditatoriais.

Por tudo isto, dizia-se que havia uma “República Velha”, a que assentava nos cânones da Constituição de 1911 e uma “República Nova”, a sua.
Seria assassinado uma mês antes de ocorrerem os acontecimentos relatados na Covilhã, onde eclodira uma revolta de partidários da República Velha. Todo esse encadear de acontecimentos iriam enquadrar-se naquilo que ficou conhecido por Monarquia do Norte, entre Janeiro e Fevereiro que comentará num outro texto.

Realmente Portugal teve nesse ano uma experiência radical de regionalização: Durante cerca de dois meses o país viveu a experiência política de ter duas regiões demarcadas até ao limite e em cada uma delas, regimes diferentes: uma República e uma Monarquia. Quando hoje se propõe dividir o nosso pequeno país em micro reinos da burocracia, para dar emprego a políticos desocupados que levarão atrás de si  pequenos batalhões de funcionários inúteis e dispensáveis que o Orçamento do Estado terá de pagar, devíamos reflectir no país historicamente somos.

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13.1.10

Adagio para um Coronel Louco - III



Analistas de dentro do Batalhão viram na “queixa” do Cabo contra o Major,  uma oportunidade que caiu ao colo do Comandante para se descartar do Major que odiava (afinal, ele odiava toda a gente ...).
... continuado
Deu luz verde à abertura de um Inquérito e, como relator nomeou um oficial que também não apreciava particularmente o Major. Sem a conivência do Comandante do Batalhão, o assunto não teria tido consequências...

O Cabo miliciano Mateus Ramos –  esbofeteado -, era um homem inteligente com uma cultura acima da média, grande leitor de livros; recordo especialmente a sua admiração por Florbela Espanca (que gostava de ler em voz alta) e Pitigrili, um autor de sucesso na altura; gostava de atletismo e praticava-o sem intenções competitivas. Nesta modalidade, impressionava-me a quantidade de recordes desportivos que ele memorizava. Da sua boca ouvi pela primeira vez referência a um atleta do Sporting, chamado Manuel Faria – o primeiro vencedor português da corrida de S. Silvestre em S. Paulo Brasil -  que, contava ele, andava a trabalhar nas obras do estádio do clube e, enquanto os atletas corriam no campo, ele com as suas botas de trolha, procurava acompanhá-los fazendo o percurso pelo exterior, até ao momento em que o Professor Moniz Pereira o chamou para treinar sob a sua orientação técnica.


O Aspirante a oficial e comandante do pelotão, a quem o inoportuno insecto se preparava para picar. também não era um vulgar militar. Chamava-se Filipe Rosário e viria a ser conhecido no mundo do teatro e da TV como o actor “Filipe Ferrer”. Figura ímpar em inúmeras peças de teatro e, ultimamente também como intérprete de telenovelas. Na altura e enquanto pessoa, era um daqueles raros seres a quem só se conhecem amigos, começando por colegas e subordinados no Batalhão de Caçadores 2, mas também na própria Cidade, onde acolhido com simpatia pela sua forma descontraída de estar na vida e ainda por ser o grande dinamizador da actividade teatral local então emergente. 

Vários dos intérpretes desta ocorrência - verdadeira mostra do que era o ambiente humano dentro dos quartéis, três anos antes da eclosão das guerras independentistas em África – já não se encontra infelizmente entre nós. Refiro-os pelo seus autênticos nomes, como homenagem à sua memória e também como contributo para a História dos que nunca entram na História.

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12.1.10

Adagio para um Coronel Louco - II



Pelo regulamento de disciplina militar, um oficial superior possui “palavra de honra”, significando que, em caso conflito disciplinar, a sua palavra basta e não há oportunidade para contraditório; já o mesmo privilégio não era concedido aos militares de baixa patente, como era o caso.

Porém, contrariando todas as previsões a “queixa” do Cabo miliciano, seguiu o seu caminho e em consequência do “auto” produzido, o Major viu registado no seu currículo militar uma “advertência” e foi coercivamente transferido para outra unidade. Para entendermos este desfecho, vamos ter que conhecer os protagonistas. Vamos ter de situarmo-nos no tempo e no ambiente em torno dos  acontecimentos. Comecemos por aqui.

Decorria o mês de Maio de 1958. Humberto Delgado tinha-se apresentado como candidato à Presidência da República. Percorria o país despertando enorme entusiasmo popular. Para trás ficara já o “obviamente demito-o”; as recepções apoteóticas no Porto e na estação de Santa Apolónia quando do seu regresso à capital iriam suceder-se noutros locais. O seu staff de campanha programara uma viagem eleitoral à Covilhã.

O Ministério da Guerra preocupado, dera antecipadamente ordens para a convocação de reservistas e a colocação dos quartéis em prevenção simples. Na tarde do dia em que a caravana do General Delgado ia passar na rua onde se encontra o edifício do então Batalhão, o Comandante deu tardiamente ordem para que fosse encerrada a Porta d’Armas do quartel. Tarde demais porque entretanto, dezenas de soldados – sobretudo entre os reservistas mobilizados – já atravessavam o portão e se colocavam na rua vitoriando a caravana de Delgado. É neste enquadramento temporal que decorre o incidente da bofetada.

Para o Major Castelo Branco de onde partiu a agressão, parecia estar guardado o papel de vilão. Não era bem assim. De pequena estatura, magro e ágil, era uma pessoa extremamente nervosa e impulsiva, mas, num ambiente militar em que nos patamares mais elevados, os maus são em maior número que os bons, ele decididamente não pertencia aos primeiros. Aquele seu acto de histeria nervosa, resultou de um acumular de tensões dentro dele, induzidas pelo seu superior imediato (melhor dito – tirano imediato) que, por ironia, apenas ostentava nas platinas da farda mais um galão que os seus, de Major, mas que o aterrorizava psicologicamente, tal como a vários outros – o Comandante do Batalhão.

O comandante da Batalhão de Caçadores 2 era um tenente-coronel - Peraltinha de seu nome. Personalidade estranhíssima, de cariz marcadamente psicótico. Poucos o conheciam no Batalhão e praticamente ninguém na Covilhã. Um misantropo, solteiro, sem amigos conhecidos, vivia entre o seu gabinete no quartel, o automóvel oficial com motorista que o transportava de um lado para o outro, e um pequeno quarto na Pensão Avenida junto ao Jardim Público, de onde nunca saía nem mesmo quando as  festas da cidade decorriam ali mesmo à porta.

Ao que se dizia, passeava para trás e para a frente no seu quarto da Pensão até altas horas da madrugada, como um animal enjaulado. Mantinha com os seus subordinados mais imediatos um relacionamento a rondar o surrealista. Mais do que uma vez foram vistos no seu gabinete, perfilados como soldados rasos, o próprio segundo comandante que era um Major e também o Major Castelo Branco que então comandava a escola de recrutas. A sua agressividade ameaçadora e o desprezo para com aqueles que obrigava a permanecer de pé e humildemente perfilados na frente da sua mesa, eram conhecidos por toda a Unidade Militar. Se alguém duvidasse da sanidade da mente daquele homem, o seu fim trágico, poucos anos depois, viria a confirmá-lo: suicidou-se com a própria arma. Continua ...

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11.1.10

Adagio para um Coronel Louco - I



O som da bofetada não chegou até aos duzentos militares que em formatura na Parada do quartel, estupefactos, a vimos aplicar ao nosso camarada de armas;  mas todos, sem excepção, a sentimos como se tivesse sido aplicada na nossa própria cara. 

O agredido, - um Cabo miliciano - rubro de surpresa e indignação, baixou-se para apanhar do chão o bivaque militar que lhe tinha caído da cabeça com a pancada, perfilou-se diante do agressor – um Major  – disse-lhe qualquer coisa que não conseguimos ouvir, fez a continência militar da praxe e foi ocupar de novo o seu lugar no pelotão.

Tudo isto se passa debaixo do arco principal da Parada do então Batalhão de Caçadores 2, actualmente Universidade da Beira Interior (UBI). O Batalhão de Instrução estava em formatura no local, para cumprir uma formalidade burocrática do exército: “o sorteio”. Este era mais uma das tentativas de aperfeiçoamento do sistema do recrutamento militar, já iniciado no governo de Teófilo Braga em 1911, durante aquele executivo que teve uma longa vida para a época, 328 dias - quase um ano. Só o governo de Afonso Costa, 13 anos mais tarde conseguiria superar esta longevidade e manter-se em S. Bento durante 390 dias. A I República era assim ...

A “formatura” destinava-se a atribuir por sorteio aos recrutas em parada, um papel com um número. Esse número iria serviria, no caso de haver excedentes de militares numa incorporação, ou razões de ordem familiar consideradas imperiosas (terem filhos ou familiares a seu encargo directo, por exemplo), para mais tarde decidir, em igualdade de circunstâncias, quem “passaria à disponibilidade” (iria para casa), imediatamente no fim da escola de recrutas e de efectuado o juramento de bandeira.

Só mais tarde se conhecerem os pormenores por detrás do insólito acontecimento ocorrido sob o arco romano da Parada: em determinado momento, em plena formatura, o cabo miliciano notara que no ombro e muito próximo do pescoço do comandante do pelotão à sua frente, um Aspirante a oficial miliciano, tinha pousado um ameaçador abelhão que a qualquer momento, poderia espetar o seu doloroso ferrão; naturalmente apressara-se a sacudi-lo com a mão.

Lá da frente da formação, o Major observara o gesto e interpretara-o, erradamente, como uma brincadeira e uma quebra de disciplina. Manda um ordenança chamar o militar, supostamente transgressor, à sua presença. Uma vez aí, por razões (psicológicas) que se tentarão explicar adiante, e sem que tivesse ocorrido qualquer troca de palavras entre ambos, dá-lhe a já referida bofetada, sem aparentemente querer saber se o seu acto, feito na presença de “inferiores” (militares menos graduados na gíria militar) do cabo miliciano,  para além de tudo o mais, também em si mesmo, constituía uma quebra grave da disciplina militar.

Com uma calma invulgar em alguém que acaba de ser publicamente humilhado e agredido, o Cabo miliciano levantou o bivaque do chão, colocou-o na cabeça, perfilou-se e, em conformidade com as normas militares vigentes, pediu ao seu superior (e agressor). permissão para apresentar uma queixa formal contra ele, ao que o outro, ainda nervoso, anuiu.

Militares de várias patentes, com a experiência dada por muitos anos passados na tropa, ao tomarem conhecimento do ocorrido, foram peremptórios: o Cabo miliciano não tinha a mínima chance de, com a sua queixa, vir a incomodar minimamente o Major e ainda menos, que daí resultasse qualquer punição. – “Vai ser levantado um auto” – diziam -  “e aí, basta que o major declare em abstracto que o cabo o desrespeitou por palavras - por exemplo!...”.

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10.1.10

Histórias da Pequena Corrupção à Portuguesa



Um amigo, importador de produtos químicos para a indústria textil, pediu-me para o introduzir em algumas empresas de lanifícios junto das quais eu tinha contactos e conhecimentos. Nessa linha, um certo dia dos anos 80 estávamos ele e eu, perante o Mestre João - um homem simples e de rudimentar instrução - que era quem fazia as compras daquela fiação de fio cardado.

As diversas matérias primas-têxteis, componentes do fio que vai ser produzido, começam por ser dispostas em camadas umas sobre as outras para assegurar uma boa mistura final, e pulverizadas camada a camada, com um lubrificante apropriado, - está a ver-se que o meu amigo importava um desses lubrificantes -  que posteriormente facilitará o processo mecânico e reduzirá a indesejada quebra das fibras têxteis durante o processo;  a mistura lotada,  passa em seguida por uma pequena máquina de tambor rotativo, a partir da qual vai iniciar-se todo um processo que passará pela cardação e posterior fiação da matéria-prima.

A operação de cardação propriamente dita, é realizada por uma bateria de máquinas que accionam cilindros de vários diâmetros, todos eles revestidos com uma tela especial (muito cara) com finas puas de aço – dito “o puado” –, a quem compete desagregar as fibras têxteis da mistura e tanto quanto possível paralelizá-las, apresentando-as na sua fase final, já sob a forma de rolos de mechas devidamente calibradas e prontos para alimentarem as máquinas de fiação.

Para lubrificar as matérias-primas a cardar, Mestre João utilizava um produto tradicional - a “oleína” – uma substância orgânica e gorda proveniente de óleos vegetais. O meu amigo esforçou-se por convencê-lo a mudar para os novos “óleos sintéticos”, que tinha sobre a oleína vantagens e vantagens, ...um nunca mais acabar. Ao sairmos, o meu amigo vinha com uma encomenda de um tambor de 200 litros do seu fantástico “óleo sintético” que iria, dali em diante substituir o lubrificante ali usado.

Semanas mais tarde, Mestre João telefona-me aparentemente em pânico: – «Uma desgraça! Nem imagina!..» – «O lubrificante que F.. (o meu amigo) vendeu para aqui, estragou completamente o “puado” das cardas, que vai ter que ser substituído! – É um prejuízo enoooorme!...»

Fiquei preocupado. Tinha a noção de quanto custava um revestimento do puado de cada “carda”. Telefonei a F.. alarmado:  – «E agora!?». Para minha estranheza, o seu comentário foi calmo – «Ah! Já sei o que aconteceu! Desculpa, esqueci-me na altura!...» - A calma dele deixava-me completamente confuso. – «Tem paciência...» – diz-me ele – «Vai lá falar com o Mestre João e diz-lhe que esteja descansado porque “aquela parte” do costume, é para ele como já se sabe. É que só por esquecimento não lhe falei aí nisso. Quando passar de novo já lhe levo o dinheiro!.»
 
Fui, algo receoso do acolhimente que me esperava. Falei com o Mestre João, expliquei-lhe. Aceitou tudo sem problema de maior. Quando me preparava para sair, acompanhou-me à porta e disse: - «Olhe, para compensar o seu transtorno de ter que cá vir, diga a F que me pode mandar outro tambor do produto !...» - Céus, como aprendi! Afinal todo aquele problema, tinha uma solução simples: Luvas!. “Puado” a auto-regenerar-se assim tão instantaneamente, nem eu nem ninguém viu certamente mais.



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